PALESTRA - FACULDADE EBRAMEC

PALESTRA - ESPAÇO TAPERA TAPERÁ

PERFORMANCE METACORPOREIDADE  - TAIWAN

PERFORMANCE METACORPOREIDADE  - TAIWAN

PERFORMANCE METACORPOREIDADE  - TAIWAN

PERFORMANCE PHILOMUNDUS - GALERIA VIRGÍLIO

AULA 6 - DAO DE JING

PERFORMANCE PHILOMUNDUS - CASA DAS ROSAS

PERFORMANCE PHILOMUNDUS - CASA DAS ROSAS

PALESTRA NO FESTIVAL DA FLIPOÇOS

PALESTRA NO CENTRO CULTURAL DE TAIPEI

CONVERSA COM RENAN DEXTRO

PERFORMANCE VASTNESS - EMBU DAS ARTES

PERFORMANCE - PAÇO DAS ARTES (USP)

LEITURA DO POEMA DO MEU LIVRO NAUFRÁGIOS

LEITURA DO MEU LIVRO NAUFRÁGIOS

AULA 1 - DAO DE JING

No decorrer das apresentações de meu trabalho de pós-gradução e de minhas análises de "Dao De Jing" para o público brasileiro, mostrei como a ética no pensamento aristotélico se desenvolvia a partir de seu conceito teleológico de felicidade (eudaimonia), enquanto que a reflexão de Laozi se fundava numa relação de harmonia com os fluxos da natureza. Nessa aula 1 sobre o capítulo 40, observo que, se o filósofo grego privilegiava a razão como princípio norteador de uma existência feliz, o sábio taoísta concebia a plenitude da existência como desdobramento de um processo contínuo de integração com o universo. 

 

Assim, a razão, para Aristóteles, é a intencionalidade que orienta a ação humana, pois sem a faculdade racional não haveria possibilidade de o homem alcançar a realização de sua felicidade. Justamente o ser humano atinge a sua dimensão ética, e portanto, a sua felicidade, na medida em que exerce a sua potência racional e se conduz de modo virtuoso com plena excelência. Por outro lado, na visão de Laozi, ser feliz é agir de modo natural e espontâneo em conexão com os princípios do próprio cosmos tal como a água que é simples, espontânea, suave e flexível, sem a presença da intencionalidade racional. A conexão com a natureza é alcançada por meio da prática da meditação no vazio da plenitude vital. Tal ação ética é integração, harmonia, compaixão e equilíbrio. O modelo de pensamento aristotélico é a lógica da exclusão dos opostos (ser/não-ser), da intencionalidade progressiva e da transcendência direcionada para um fim (telos). Enquanto, na visão holística do Dao, seguimos os fluxos da natureza, a lógica da imanência, da inclusão, da complementaridade dos opostos e da não-intencionalidade (wu wei - 无为).   

AULA 2 - DAO DE JING

o espírito do vale não morre      
diz-se místico feminino

a porta do místico feminino
diz-se raiz do céu e da terra

suave e multíflua

parece lá existir
contudo opera fio a fio

(Capítulo 6 do "Dao De Jing" - tradução de Mario Sproviero)

Prosseguindo com a aula 2 sobre o capítulo 6, sublinho que o próprio fato de distinguir os conceitos e categorizar as realidades dos seres à maneira aristotélica vai constituindo um determinado modo de pensar, que se valorizado ao excesso, poderá cristalizar nossos pensamentos de tal modo que ficamos destituídos da capacidade de pensar por meio de imagens e analogias. Em pleno século XXI, seria ainda equivocado considerar que a atividade do pensamento para ser estritamente "racional" deveria necessariamente excluir a intuição e a imaginação simbólica. Tal atitude unilateral e monolítica pareceria contraproducente do ponto de vista cognitivo. Não será justamente essa extrema valorização da razão em detrimento da imaginação que nos conduziu a um desequilíbrio e a uma desvinculação de nossa subjetividade em relação à natureza?     

É como se a linguagem poética que opera por meio de imagens metafóricas e a linguagem racional que trabalha com definições rigorosas fossem, por natureza, irreconciliáveis entre si. Contudo, nossa natureza humana não abrigaria em si estas duas polaridades, a saber, o princípio do masculino associado à razão e o princípio feminino relacionado à imaginação? Se examinarmos a complexidade de nosso ser do ponto de vista psicossomático, veremos que seria até improdutivo dissociar os dois pólos. Somos tão racionais quanto imaginativos. Jung nos revelou que quando os princípios de animus (masculino) e de anima (feminino) são integrados num processo de harmonização, alcançamos nosso verdadeiro ser. Não seria essa hipervalorização uma das causas de nosso mal-estar contemporâneo, ou seja, de nosso desgaste físico-mental? Por que será que nosso corpo se desgasta e vai perdendo sua energia vital ao longo da nossa existência? 

Se examinarmos a fundo, constataremos também que, além desse fator, há outros como o sistema de relações sociais, o contexto histórico, e sobretudo, a rotina de trabalho que nos sobrecarrega com preocupações e inquietações. Desperdiçamos nossa energia vital-psíquica. Enrijecemos tanto fisicamente como mentalmente. Nossos pensamentos voltados unicamente para a exterioridade nos incitam à dispersão e por isso não conseguimos habitar o silêncio interior, aquilo que Laozi chamou por "espírito do vale" (谷 神 - gu shen), que é a própria dimensão da quietude (靜 - jing) e da vida longa (長 生 - chang shen). 

Para que possamos viver e continuar revitalizando nossa vida, seria importante retornarmos à essa dimensão originária, ancestral e anterior à todas as manifestações. Ela é concebida como a "raiz do céu e da terra", como aquilo que origina e unifica os princípios Yang (masculino) e Ying (feminino) dentro da totalidade de nosso ser. Daí por que a "porta do místico feminino" seja essa passagem que conecta as duas faces da natureza do Tao, as quais são como duas polaridades complementares. E
ssa dimensão, segundo o sábio chinês, é o estado de ser do extremo vazio alcançado pelo retorno à nossa raiz (归 根 - guei gen). Se retornarmos ao espírito do vale que simboliza o vazio repleto de energia vital e fizermos o exercício de esvaziamento de nossos pensamentos diários, alcançaremos uma vida mais plena e revitalizada. Essa atividade de meditação diária favorecerá uma vida mais aberta aos fluxos de energia vital, e consequentemente, uma reconexão com a natureza no sentido de que nossa existência será preenchida por uma correnteza de vitalidade inesgotável. 

Do ponto de vista psico-físico, isso significaria um reequilíbrio e diminuiria inúmeras tensões que se acumulam no interior de nosso organismo e bloqueiam nosso fluxo de energia. Do ponto de vista ético, nossas ações cotidianas consigo mesmo e com os outros se harmonizariam, mesmo quando seria necessário confrontarmos nossas opiniões divergentes. É até saudável que possamos dialogar com pontos de vistas diferentes, contanto que respeitemos as diferenças, sabendo como ouvir e falar sem sobrevalorizar noso pensamento. É evidente que as discussões são saudáveis, desde que não resultem em agressões estéreis, desrespeito e violência. Seria também uma atitude saudosista desejar um retorno à pura natureza onde jamais teríamos de assistir aos conflitos e contradições humanas. 

Desse modo, pensando junto com Laozi, podemos utilizar tanto a razão como a imaginação para construir uma existência mais significativa. Cabe a cada um de nós refletir sobre nossa própria vida. Não há normas e prescrições reguladoras de acordo com as quais teríamos de viver. Segundo Laozi, a naturalidade (自 然 - zi ran) é fundamental e está contida como essência na natureza e no ser humano. Jamais seríamos "naturais" se fôssemos obrigados a seguir regras, prescrições e princípios normativos éticos. Aqui estamos bem distantes do confucionismo, outra corrente de pensamento extremamente influente na sociedade chinesa tanto como o taoísmo. Assim, viver com naturalidade é viver com espontaneidade vital de uma criança e com a consciência do ser sagrado (圣 人 - sheng ren). Não significa que voltaremos a ser como "crianças" no sentido de "seres infantilizados". O que está em jogo nesse capítulo 6 é como podemos nos religar com essa dimensão de nosso ser vital, percebendo a totalidade de ser e não-ser simbolizada pelo "místico feminino", que é fonte, nascedouro, condição de pré-manifestação de todas as manifestações. É o próprio Tao, nem masculino nem feminino, mas, ancestral, anterior, imortal e "raiz" de ambos princípios. É a dimensão potencial dos fluxos de energia inesgotável que produz e efetivamente cria todas as criaturas do mundo sem nenhum esforço, ou se quisermos, para usar uma linguagem contemporânea, o princípio de vitalização. Se relembrarmos a noção de "fluxos" presente no pensamento de Gilles Deleuze - um dos pensadores mais importantes da contemporaneidade - os fluxos da vida não seriam senão "as potências do desejo em estado de permamente metamorfose e diferenciação" (cf. Deleuze Hoje, Editora UNIFESP, p.487)

 


 

AULA 3 - DAO DE JING

Para o sábio chinês Laozi (604 a.C.), o corpo humano não é visto como obstáculo ou fardo negativo no processo de autoconhecimento. Sendo nosso corpo um elemento fundamental para a constituição da existência, aquele que vivencia e cultiva seu território de energias vitais jamais poderia negligenciá-lo completamente, porque sem ele seria impossível viver de acordo com a natureza do Dao. Eis porque seria absurdo na visão taoísta denegrir o corpo, já que esse último é a própria condição para o cultivo da longevidade (cap.44), da imortalidade (cap.16), da via natural (cap.51), da ação não-intencional (cap.10) e da potencialidade vital do estado de ser-criança (cap.55).

 

Laozi associa a ideia do desenvolvimento da potencialidade energética do corpo com a existência do “homem sagrado” (cap.2), que justamente cultiva uma vida iluminada, harmoniosa e duradoura. Essa concepção pode causar uma certa estranheza, mas a ideia fundamental é o de “gerar”, “cultivar”, “nutrir”, “criar” e “amadurecer” (cap.51) nosso corpo vital energético de modo que seja possível viver uma vida sagrada, cuja essência seja de harmonização com a natureza e de longa duração. O caminho do Dao está longe de ser uma prática ascética de regulações, prescrições, normas de conduta e mandamentos éticos que poderiam cercear a liberdade do corpo humano. Laozi reconhece os danos causados ao corpo através do desejo excessivo relacionado à hipervalorização da identidade pessoal. No entanto, ele reconhece a dimensão das potencialidades do corpo, da vida e da natureza, enfatizando o cuidado de si através da nossa harmonização com a natureza ancestral do Dao (cap.16). Isso significa que o cultivo da essência vital do corpo é necessário para que possamos retornar ao caminho da “naturalidade” (cap.51) e alcançar a “iluminação sutil” (cap.36).

Assim, nesse contexto, o cultivo do corpo e o cuidado de si representam dois aspectos do mesmo caminho. É como se Laozi nos dissesse para abandonarmos tudo aquilo que seja danoso, artificial e anti-natural em relação ao nosso corpo, porque somente desse modo poderemos agir em consonância com a dimensão originária da natureza. Alcançamos o caminho da naturalidade na medida em que nos religamos com o estado do ser do “recém-nascido” (cap.55). É justamente a ideia de “regular o sopro maleável como no recém-nascido” (cap.10) de tal forma que despertemos para aquilo que há de mais natural e espontâneo em nosso ser, cultivando no corpo os fluxos de energia vital, onde seria possível chegarmos ao estado de “virtude” (cap.28 e 55), qualidade da plenitude de quem manifesta a potência natural da criança. Como observa John Blofeld:

 

“(...) Para acompanhar sem esforço a natureza, como o faz um peixe ou um mestre artesão, cumpre nadar a favor da correnteza, deixar a ferramenta deslizar com suavidade. Quando se toma a natureza por guia, por amigo, o viver se torna fácil, calmo, alegre até: as preocupações se vão, a serenidade se instala. Wu wei, princípio cardeal dos taoístas, literalmente quer dizer não-ação, mas não no sentido de postar-se inerme como um tronco ou uma pedra; significa antes evitar ações que não sejam espontâneas, atuar plena e intensamente apenas naquilo que constitui a necessidade presente, estar alerta sem fadiga e calcular cada ato em função de um bom motivo...” (BLOFELD, 1979, p. 24)

 

Como também sublinha Fritjof Capra no O Tao da Física a respeito da espontaneidade e da ação natural que segue esse princípio:

 

“(...) A espontaneidade é o princípio ativo do Tao. Dessa forma, uma vez que a conduta humana deve ser modelada de acordo com a operação do Tao, a espontaneidade deveria também ser a característica de toda ação humana. Agir em harmonia com a natureza, equivale, para os taoístas, a agir espontaneamente e em consonância com verdadeira natureza de cada indivíduo. Significa confiar na inteligência intuitiva do indivíduo, inata na mente humana da mesma forma que as leis da mudança são inatas a todas as coisas que nos cercam...” (CAPRA, 2013, p.128)

 

O caminho taoísta acompanha o fluxo natural de todo universo, já que tudo o que existe na natureza se move numa interrelação dinâmica regulada por mudanças cíclicas e constantes. Os fenômenos básicos dessa mudança se manifestam na mudança das estações, no nascer e pôr do sol, na periodicidade das marés e nos diversos eventos naturais. Ou seja, tudo é mutação, transformação e movimento acompanhado por uma ordenação regular. Nesse processo de transformação, todas as coisas se realizam de acordo com a interdependência. Nada existe de modo separado, porque todas as partes se correlacionam e se integram numa totalidade sistêmica. Laozi nos leva a pensar na noção de complementaridade que atravessa toda interdependência dinâmica entre os pares de opostos assim como no caráter relativo de toda realidade: “(...) o imanifesto e o manifesto consurgem / o fácil e o difícil confluem / o longo e o curto condizem / o alto e o baixo convergem / o som e a voz concordam / o anverso e o reverso coincidem” (cap.2). Em outras palavras, todo universo se baseia na correlação entre os diversos elementos, sendo que por trás dessa teia cósmica, manifesta-se a interação dinâmica entre os princípios yin e yang.

 

“(...) Os taoístas consideravam todas as mudanças da natureza como manifestações da interação dinâmica entre polaridades de opostos yin e yang, o que acabou por levá-los a acreditar que qualquer par de opostos constitui uma relação polar na qual cada um dos polos se acha dinamicamente vinculado ao outro. Para a mente ocidental,  essa ideia da unidade implícita de todos os opostos é extremamente difícil de aceitar. Parece-nos bastante paradoxal que as experiências e os valores que sempre acreditamos fossem opostos sejam, afinal de contas, aspectos da mesma coisa. No Oriente, entretanto, sempre se considerou o dirigir-se para além de todos os opostos concebíveis essencial para se chegar á iluminação...” (p.125)

 

É possível reconhecer em Laozi uma concepção radicalmente singular que contraria nossos padrões de pensamento. Compreender a complexidade do pensamento taoísta é reavaliar e superar a visão mecanicista/cartesiana que domina ainda nosso conhecimento, pois essa visão tende a analisar as partes da realidade de modo fragmentado em que cada parte é visto como independente da outra.

AULA 4 - DAO DE JING

Na visão holística e sistêmica do Dao, seguimos os fluxos da natureza sob a lógica da imanência, da inclusão, da complementaridade dos opostos e da não-intencionalidade (ou não-ação). Como explica John Blofeld:

 

“A alternância é essencial à existência; certas calamidades são benefícios disfarçados. O alto não é menos útil que o baixo, e o último o é assim como o primeiro. A expansão implica a contração, o reto, o curvo, o forte, o fraco. Erguer-se e cair, dar e receber – cada coisa tem seu lugar e utilidade...(p.57)

 

Justamente na questão fundamental do corpo, os chineses recorriam a uma “visão sistêmica” onde, segundo Capra, pensamos mais nas relações entre as partes dentro de um sistema dinâmico do que na análise de cada parte em seu isolamento.

 

“A ideia chinesa do corpo sempre foi predominantemente funcional e preocupada mais com as interrelações de suas partes do que com a exatidão anatômica. Assim, o conceito chinês de um órgão físico refere-se a todo um sistema funcional, considerado em sua totalidade, paralelamente às partes aplicáveis do sistema de correspondências. Por exemplo, a ideia dos pulmões inclui não só os próprios pulmões, mas todo o aparelho respiratório, o nariz, a pele e as secreções associadas a esses órgãos. No sistema de correspondências, os pulmões estão associados ao mental, à cor branca, a um gosto picante, ao pesar e ao negativismo, e a várias outras qualidades e fenômenos”.(CAPRA, 2012, p.307)

 

Além da interrelação entre as partes do corpo, percebe-se a interrelação da nossa individualidade com a totalidade do cosmo. O homem em seu estado de harmonia espelha a ordem macrocósmica. Em várias passagens do Dao De Jing, Laozi nos coloca diante dessa compreensão totalizante: “(...) o homem segue a terra / a terra segue o céu / o céu segue o curso / o curso segue a si”(cap.25), e também numa espécie de desprendimento existencial, sublinha a relação de correspondência entre homem e natureza e a simplicidade da sua não-ação: “sem sair de casa / conhecer o mundo / sem espiar pela janela / ver o curso do céu / quanto mais longe se vai / menos se conhece / por isso o homem santo.../ não anda.../ e conhece / não vê.../ e nomeia / não atua.../ e realiza”; ou mesmo de modo a expressar poeticamente o processo de retorno à natureza do Tao que equivale ao conhecimento no seu sentido genuíno: (..) o retorno à raiz soa: repouso / isto se diz: retornar ao destino / o retorno ao destino soa: eternidade / conhecer a eternidade soa: alumbramento / não conhecer a eternidade é tresloucar no azar / conhecer a eternidade é englobante / englobamento / então justiça / justiça / então mediação / mediação / então céu / céu / então curso / curso / então duração / dissolvendo-se o corpo / não periga” (Cap.16). As oposições interagem e se complementam no processo dinâmico em que um pólo se transforma no outro como no capítulo 22: “curvando / então fica inteiro / retorcendo / então fica direito / esvaziando / então fica pleno / desgastando / então fica novo / sendo pouco / então é obtido...” e de tal forma que “assim, o homem santo abraçando o uno / torna-se modelo sob o céu...”. Como comenta Capra:

 

“A noção chinesa do corpo como um sistema indivisível de componentes interrelacionados está, obviamente, muito mais próxima da moderna abordagem sistêmica do que do modelo cartesiano clássico; essa semelhança é reforçada pelo fato de os chineses verem a rede de relações que estudavam como algo intrinsecamente dinâmico. O organismo individual, à semelhança do cosmo como um todo, era visto como parte de um estado de contínuas, múltiplas e interdependentes flutuações...” (CAPRA, 2012, p. 307)

 

Nesse sentido, o próprio Laozi não concebe o corpo como algo negativo, limitante e oposto à alma. Embora encontremos as palavras “espírito” e “corpo” no pensamento de Laozi, elas não são utilizadas e compreendidas no mesmo sentido em que empregamos no paradigma do pensamento ocidental. Não são vistos como duas entidades separadas. A razão é que, no ponto de vista ocidental e, especificamente, na perspectiva do cristianismo, o corpo é sempre considerado inferior, sujo, suscetível de imperfeições e desequilíbrios, enquanto que a alma é pensada como superior, pura, sagrada e espiritualmente elevada. Essa visão dualista, valorativa e discriminadora supõe que, para alcançarmos a verdade, deveríamos nos libertar de nosso corpo e cuidar de nossa alma. Tal é a concepção que ainda encontramos atualmente em certas religiões e nos domínios do saber cujo objetivo é hierarquizar as realidades e conservar um conjunto de valores no sentido de sustentar a crença de que há uma forma superior (alma/razão/deus) e outra inferior (corpo/paixão/demônio). Por outro lado, encontramos também um discurso totalmente oposto ao primeiro quando, na nossa sociedade de hiperconsumo e de hipervalorização do corpo, este passa a ser apenas uma espécie de lugar de satisfação dos prazeres, interesses e desejos. 

 

Contudo, na compreensão de Laozi, o corpo simplesmente deve ser cultivado e reconhecido como condição imprescindível no caminho do autoconhecimento. Nem sobrevalorizado e tampouco negligenciado, pois dentre aqueles bens estimados pela grande maioria dos homens como fama e riqueza material, é evidente que o corpo deveria ser visto com mais atenção e cuidado, visto que jamais poderia ser reduzido a um mero conjunto de órgãos com funções operando mecanicamente no sentido de uma máquina, ou a uma forma orgânica, passageira e transitória. O ponto problemático é sempre a oposição, a dualidade e a ausência de harmonia entre corpo e mente, corpo e alma, corpo e mundo. Se olharmos para nosso próprio corpo, chegaremos a perceber como ele é fundamental não somente para sobrevivermos no mundo como para vivermos harmoniosamente com a natureza do Dao Absoluto. É razoável, portanto, que seja tratado de maneira sóbria, equilibrada e condizente com a harmonia natural. 

AULA 5 - DAO DE JING